MUSEU DE CONGONHAS RECEBE EXPOSIÇÃO INÉDITA DE BURLE MARX

Mostra tem como objetivo revelar como o artista, a partir de aspectos figurativos presentes no início da trajetória visual, foi desconstruindo a forma até criar um pensamento estético capaz de o inspirar em seus projetos paisagísticos

 

Pouca gente sabe, mas foi Roberto Burle Marx (1909-1994), um dos mais influentes paisagistas do século 20, o responsável por criar, em 1973, os Jardins do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas. O espaço, ao ar livre, “Patrimônio Cultural Mundial”, a partir desta intervenção, ganhou notoriedade permitindo que o visitante pudesse visualizar, sem barreiras e ao fundo, o patrimônio histórico edificado, criando um espaço único de convívio e contemplação. A importante intervenção na cidade foi sendo esquecida ao longo dos tempos. A exposição “Burle Marx – Entre as cúpulas brancas dos Passos”, chega para recuperar este legado, no momento em que o IPHAN comemora seus 80 anos.

 

A mostra, uma realização conjunta do Centro Cultural Sítio Roberto Burle Marx do IPHAN, em parceria com o Museu de Congonhas, traz uma inédita leitura curatorial da obra do artista, em diálogo com o espaço externo, onde está localizado um de seus mais belos jardins em Minas Gerais. Serão apresentadas no Museu de Congonhas, gravuras, pinturas e esculturas pertencentes ao Sítio Burle Marx, com a intenção de instigar o espectador a compreender o pensamento deixado pelo paisagista nos Jardins do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos. A intenção é a de revelar como Burle Marx, a partir de aspectos figurativos presentes no início da trajetória visual, foi desconstruindo a forma, até criar um pensamento estético capaz de o inspirar em seus projetos paisagísticos.

 

O pensamento estético do artista tem sido alvo de variadas reflexões. “O jardim de Burle Marx não se subordina à natureza, à arquitetura, ao lugar, à tradição, mas sua identidade existe em equilíbrio com eles; utilizando os alia e transforma. Parece, portanto, apropriado entender a sua obra como uma "tatuagem" uma operação delicada que leva em consideração as características do lugar e é ao mesmo tempo contundente; com um grafismo, se define uma paisagem diferente daquela na qual este é inserido”, afirma a paisagista Ana Rosa de Oliveira, no texto “A construção formal do jardim em Roberto Burle Marx”.

 

A proposta de reformulação e embelezamento dos Jardins do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, remonta à presença dos Padres Redentoristasem Congonhas,em meados do século passado,então responsáveis pela gestão do local. Hoje o Santuário é administrado pela Arquidiocese de Mariana. Antes da intervenção de Burle Marx, o lugar possuía um visual carregado dificultando a apreciação do sítio histórico. No projeto de reformulação, o paisagista utilizou plantas brasileiras da região, como o Cipó de São João, a grama batatais, os ipês amarelos, as palmeiras e o alecrim de Campinas. O projeto do jardim, em formato de linhas sinuosas e modernas, passou a sinalizar o caminho da Cruz, compondo um espaço único de convívio e contemplação em diálogo com a paisagem do entorno.

 

Vida e obra

Roberto Burle Marx (1909-1994) nasceu em São Paulo e foi criado, a partir dos 4 anos de idade, no Rio de Janeiro. Manifestou vocação para as artes plásticas desde cedo, porém, foi aos 18 anos, em viagem para a Europa, que decidiu se tornar pintor. Lá, também conheceu a coleção de plantas brasileiras do Jardim Botânico de Dahlem, em Berlim, que o inspirou, ao voltar, a criar jardins com plantas tropicais, ao invés dos jardins tradicionais de inspiração europeia.

 

Em 1932, convidado pelo urbanista Lúcio Costa, fez seu primeiro jardim em uma residência em Copacabana (RJ). Em 1934, como diretor de Parques e Jardins em Pernambuco, começou a fazer jardins públicos, vocação que estendeu a Congonhas, quando, a convite do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG), realizou, de 1973 a 1974, o projeto paisagístico dos jardins do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos.

 

Considerado o mais influente paisagista do século 20, produziu uma mudança de paradigma de amplitude mundial, o jardim tropical moderno, que se tornou modelo de inovação. Seus projetos se destacam tanto pela sensibilidade artística quanto pela incorporação do conhecimento científico relativo às comunidades vegetais e sua relação com o ambiente.

 

Para Burle Marx, natureza e cultura constituem uma mesma esfera, anterior e superior ao homem, onde a humanidade se enraíza e identifica. Sua residência, o Sítio Roberto Burle Marx, atualmente pertencente ao Iphan, preserva um importante patrimônio genético onde sobrevivem plantas oriundas de ambientes silvestres atualmente devastados, as quais, sem a atuação de Burle Marx, seriam hoje desconhecidas.

 

O paisagista realizou, ao longo da vida, expedições de observação e coleta, cercando-se sempre de botânicos, ilustradores e outros especialistas. As coletas de espécies em distintos biomas brasileiros e o seu trabalho de multiplicação, domesticação e conservação possibilitou a montagem da coleção, que pode ser considerada como um banco de germoplasma, numa visão de Recursos Genéticos Vegetais.

 

Quando começou a desenhar jardins, o paisagismo utilizado no Brasil imitava modelos europeus. Ainda que possa ter mantido influências dos jardins barrocos, renascentistas e românticos, a nova proposta de jardim tropical não se enquadra em qualquer dessas escolas. Ao contrário: contrapõe-se a elas, adotando a exuberância tropical como critério de construção, com a utilização intensa da flora nativa, a incorporação de referências culturais nacionais e a busca de integração com o ambiente natural circundante.

 

Sítio Burle Marx

 

O Centro Cultural Sítio Roberto Burle Marx, localizado na Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, foi doado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 1985, pelo próprio paisagista,com a intenção de preservar suas experiências, criar uma escola de paisagismo, botânica e artes em geral e transmitir o seu principal legado: fazer jardins. Burle Marx adquiriu a propriedade, em 1949, junto com seu irmão Siegfried.

 

Restaurou as construções existentes no local e trouxe sua coleção de plantas. A partir de 1973, fez de Barra de Guaratiba sua residência fixa. Hoje, o espaço conta com mais de 3,5 mil espécies botânicas. O Museu-Casa de Burle Marx, musealizado em 1999, apresenta ao público um acervo composto por peças de mobiliário, objetos de uso pessoal, obras de arte erudita e popular, que Burle Marx colecionou ao longo da vida, bem como criações do paisagista evocando memórias de um artista único, que tanto e também soube colecionar objetos, plantas e amizades.

 

A exposição “Burle Marx: Entre as cúpulas brancas dos Passos” inaugura a parceria entre o Sítio Burle Marx e o Museu de Congonhas. Ao longo do último ano, as duas instituições desenvolveram uma série de interlocuções com vários desdobramentos importantes. Entre eles, um diagnóstico da situação atual dos Jardins do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, a partir do projeto original. A proposta é a de, a partir da abertura da exposição, quando o diagnóstico será entregue ao município, se possa consolidar uma série de ações de revitalização e recuperação deste importante patrimônio do povo brasileiro.

 

 

BURLE MARX: ENTRE AS CÚPULAS BRANCAS DOS PASSOS

Exposição de pinturas, gravuras e esculturas do Centro Cultural Sítio Burle Marx (RJ). Abertura dia 30, às 20h, no Museu de Congonhas (Alameda Cidade de Matosinhos de Portugal, 77, Basílica). A mostra ficará aberta até março de 2018, de terça a domingo, das 9h às 17h, com ingressos a R$ 10 (inteira). Quarta, das 13h às 21h, a entrada é gratuita. Informações: (31) 3732-2526.

Fonte (Etc Comunicação)